UM PROJETO IGUAL, MAS DIFERENTE…

fotos © Fabrício Escandiuzzi para o Portal Terra

fotos © Fabrício Escandiuzzi para o Portal Terra

Na cidade catarinense de São José foi inaugurada a renovada sede da Câmara Municipal. Isto não seria motivo para nenhuma surpresa, mas esta obra, diferente do que ocorre na quase totalidade dos prédios públicos do país, apresenta algumas novidades bem interessantes do ponto de vista das construções sustentáveis, principalmente o respeito as raízes açorianas que deu origem à cidade e algumas preocupações ambientais que geralmente não passam de um discurso evasivo…

O prédio em si é bastante sóbrio em sua aparência. O projeto da reforma da construção original de 1972 ficou por conta do Arquiteto Marcos Deitos, que mesmo respeitando os traços característicos originais, buscou a introdução de elementos que garantissem economia na operação e manutenção da Câmara ao longo dos próximos anos, amortizando com isto o custo aproximado de dois milhões de reais. Dentre estes, destacam-se a captação, armazenagem e uso de águas pluviais para os vasos sanitários, irrigação de jardins e limpeza, e a substituição das paredes convencionais por painéis envidraçados que garantem iluminação natural em todos os gabinetes e no plenário. O grande destaque é a utilização de um aerogerador da empresa Energia Pura, com capacidade de produção de mais de 500kWh de energia limpa ao mês (cerca de metade do consumo da edificação) graças aos fortes e constantes ventos da histórica cidade litorânea, instalado na praça de acesso.

Com a revitalização, foi construído um novo hall de entrada, plenário com capacidade para 300 pessoas e vista para o mar, e corredor de acesso entre os prédios que abrigarão galerias de arte e memória de São José. A grande contribuição da obra para a comunidade é a reconstrução do antigo trapiche que existia no local em 1908. Este trapiche foi restaurado nas décadas de 20 e 40 e uma tempestade destruiu-o em 1956.

“Esta é uma obra pensada também para o futuro. Foi um grande desafio e um presente para cidade e, principalmente, para o Centro Histórico, pois foi aqui que tudo começou e é um dos lugares mais lindos de São José. Eu quero provocar os órgãos públicos para olharem mais para este local. Não saíram recursos da saúde, educação ou qualquer outra necessidade do Município. Economizamos os recursos públicos destinados para a Câmara e investimos no prédio que atende a população”, declarou o Presidente da Câmara – Vereador Amauri Valdemar da Silva (PTB), que aliás, atende pelo sugestivo nome de “Amauri dos Projetos”.

A ENERGIA SUBIU NO TELHADO

Imagem © RES Group Company

Imagem © RES Group Company

Imagem © RES Group Company

Imagem © RES Group Company

Sempre que se pensa na aplicação de painéis fotovoltaicos para produção local de energia, há dois fatores que aparecem: o custo e a estética. Se para o alto custo ainda não se encontra uma alternativa viável, a Heritage Solar Slate ataca a segunda parte do problema com a sua inovadora telha solar, projetada para que se pareçam com as tradicionais telhas de ardósia. As ardósias fotovoltaicas fornecem uma alternativa elegante comparadas aos painéis-padrão. São totalmente à prova de intempéries e perfeitas para o uso em prédios históricos nas áreas de preservação. Espera-se que os painéis de ardósia permitem que grupos como o National Trust reduzam a “pegada de carbono” dos prédios históricos e de suas atrações.

O interessante nestas ardósias é que elas não apresentam partes móveis e quase não exigem manutenção. São projetadas para se misturar com as telhas tradicionais (conforme as imagens comprovam), o que lhes permite atender as normas e regulamentações mesmo em áreas de preservação histórica, onde intervenções são sempre consideradas críticas. O melhor de tudo, estes painéis podem ser facilmente instalados graças a um sistema de “ajuste e esqueça” (do inglês fit-and-forget), que não requer nenhum treinamento especializado para a sua instalação. 340 painéis foram empregados em Snowdonia National Park – norte do País de Gales, em uma tradicional casa com mais de 200 anos chamada Y Stabal, meticulosamente revitalizada e convertida em casa de veraneio (para locação por temporada). Os sistemas de aquecimento no piso da casa é alimentados por bombas de calor de origem termal, que geram sua eletricidade através da utilização destas telhas solares, produzindo energia suficiente para retornar um excedente para a rede pública.

Esta vantagem adicional que o sistema proposto e implementado pela Heritage Solar Slates qualifica a construção no plano tarifário feed-in, que incentiva projetos energéticos com uso de fontes renováveis em todo o Reino Unido. Em essência, as tarifas deste tipo são pagamentos feitos pelas concessionárias para edificações que geram sua própria energia. O objetivo é aumentar o índice de produção de energia de fontes renováveis para 20% da matriz energética até o ano de 2020.

A responsável pelo empreendimento é a RES (Renewable Energy Company), uma das líderes mundiais em desenvolvimento de projetos de energias renováveis. A empresa atua no campo da energia solar em grande escala, a biomassa, eólica – em terra e no mar (onshore e offshore), por ondas ou marés, bem como a produção de energia no local das construções (on site). Através de sua filial PV Systems, foi executada a implementação do sistema de produção de energia solar na casa Y Stabal. Esta subsidiária já projetou e instalou mais de 1000 sistemas elétricos, tanto no Reino Unido quanto no restante da Europa, fornecendo aos seus clientes um pacote integrado de painéis fotovoltaicos, desde a concepção e consulta até a instalação e monitoramento de desempenho.

G. H. RESIDENCE – UMA CASA NO MEIO DO TEXAS

Tecnicamente falando (ou escrevendo sobre…), a residência Gibbs Hollow não é tanto uma casa, ou um objeto arquitetônico convencional, mas insinua-se mais como uma “representação habitável” das grandes extensões calcárias e dos aquíferos existentes neste sítio, localizado na porção central do estado do Texas (EUA).thomas-bercy-calvin-chen

Concebido pelo escritório americano Bercy Chen Studio LP, este projeto ainda está em execução, mas já apresenta de forma clara características de sustentabilidade extremamente interessantes, principalmente no que diz respeito ao aproveitamento energético das condições naturais propiciadas pelo local.

Imagem CC "Vernal Pool" por Alex Thomson e Imagem © G.H. Residence por Bercy Chen Studio LP

Imagem CC "Vernal Pool" por Alex Thomson e Imagem © G.H. Residence por Bercy Chen Studio LP

Inicialmente, destaca-se o telhado – estruturado de forma a criar uma bacia natural para captar a água da chuva, não muito diferente do que ocorre com as piscinas naturais encontradas no afloramento de Enchanted Rock (conforme imagem de referência acima). Estas bacias aproveitam os veios e fluxos naturais, contribuindo para a implementação e utilização de painéis fotovoltaicos e aquecedores solares para água quente. Desta forma, a água, eletricidade e calor que são colhidas pelo telhado em um sistema extensivo de condicionamento climático  utiliza bombas de água, fonte de calor radiante e circuitos fechados para cumprir tanto com o requisitos de aquecimento quanto com os de  refrigeração para a residência. O projeto de conforto térmico é interligado à terra por meio de loops, bem como emprega piscinas e cisternas de água, estabelecendo assim um sistema de troca de calor que minimiza o consumo da eletricidade ou de gás.

Imagem © dos Sistemas de Refrigeração e Aquecimento por Bercy Chen Studio LP

Imagem © dos Sistemas de Refrigeração e Aquecimento por Bercy Chen Studio LP

Em termos conceituais, o projeto da residência conforma-se com a inserção de duas longas paredes de pedra calcária nativas do local. Assim, é obtida uma imagem de cunha, cujas paredes servem como limites e demarcam o espaço doméstico em relação à natureza circundante. Estas paredes permitem ambientes interiores com foco visual direcionado para a exuberante vegetação tropical a ser utilizada. O programa desta residência divide-se em duas alas (ao longo das paredes de pedra), uma de caráter social e outra privada. O estabelecimento  de um suave deslocamento entre as duas asas principais geram um pátio exterior que servirá como um espaço de convivência a ser utilizado em grande parte do ano. A localização das paredes de contorno e todos os elementos estruturais da construção respeitaram a presença e preservação de três carvalhos adultos e nativos.

Imagem © do projeto, por Bercy Chen Studio LP

Imagem © do projeto, por Bercy Chen Studio LP

Imagem © da execução, por Bercy Chen Studio LP

Imagem © da execução, por Bercy Chen Studio LP

CINEMA A PEDAL

Imagem © Martin Waters em cortesia ao FACT Blog

Imagem © Martin Waters em cortesia ao FACT Blog

Uma coletividade de artistas, músicos, designers, ecologistas e engenheiros – The Magnificent Revolution, criaram uma forma interessante de manifestar seu repúdio e inconformismo no uso da geração de energia por meio de combustíveis fósseis: o cinema a pedal! Pelo menos dez bicicletas alinhadas de frente para a projeção geram uma força de 600W capaz de acionar o sistema de áudio-visual. Claro que para alguém como eu que é do tipo “cinéfilo-sedentário-devorador-de-bibs”, de revolucionário mesmo está a atitude consciente e a manifestação limpa e coerente com as preocupações discutidas por aquele grupo. Quer ver como funciona? Veja o vídeo no YouTube e se divirta!

Quem tiver curiosidade e a oportunidade de conhecer in loco, o cinema do FACT Picturehouse (Galeria da Fundação para Arte e Tecnologias Criativas, em inglês) fica na 88 Wood Street, Liverpool, L14DQ [fone +44 0151 7074444]. Esta é uma organização líder na Grã-Bretanha no comissionamento e apresentação de filmes, vídeos e novas mídias de arte.

Imagem da audiência e, ao lado, excerto do filme.

Imagem da audiência e, ao lado, excerto do filme.

Na verdade, o sistema desenvolvido lembra muito aquele mostrado no filme “Les Triplettes de Belleville”, onde o ciclista protagonista da história é sequestrado por mafiosos e obrigado a pedalar junto a dois oponentes uma Volta da França virtual, enquanto pessoas dos mais diversos gêneros faziam apostas para ver quem seria o vencedor…

TUNT-TUNT SUSTENTÁVEL

Energia sob os pés. Foto Marc Nolt, Giullia Melloni & Ronald van Heerik.

Energia sob os pés. Foto Marc Nolt, Giullia Melloni & Ronald van Heerik.

Com o slogan “Pense Global, Dance Local”, está em funcionamento desde setembro de 2008, em Roterdã (Holanda), o Watt Club.

Afora todos os itens comuns em casas noturnas deste gênero espalhadas pelo mundo, o grande destaque da casa de 4.500m2 fica por conta do piso onde as pessoas dançam. Com a tecnologia batizada de piezoeletricidade, cientistas e investidores holandeses puseram em prática a idéia utilizada muitas vezes em campanhas publicitárias de calçados: a pisada forte! Através de uma pista de dança composta de módulos que suportam até 150kg, os clubbers transformam o impacto de suas pisadas em energia, comprimindo em até 1cm cada um dos módulos (plataforma) e espremendo com isto células piezoelétricas, eles geram cargas que produzem eletricidade.

Apesar da notícia ser fabulosa do ponto de vista ambiental, por tratar-se de uma forma inusitada e completamente limpa de produção de energia, o processo ainda é caro e ineficaz. Segundo o proprietário, Aryan Tieleman, “um casal dançando produz 40W por hora, o suficiente para manter acesa uma lâmpada convencional. Na verdade, esta energia está sendo utilizada para manter acesos os leds que trocam de cor e que compõem a base de cada um dos módulos (65 x 65cm). O Watt Club, desta forma, gera apenas 10% da energia necessária ao funcionamento da casa.

Dados por döll – atelier voor bouwkunst.

Dados Técnicos por döll – atelier voor bouwkunst.

No site do Sustainable Dance Club, a pista é oferecida para aluguel – 60 euros a unidade, podendo ser montada em eventos para surpreender as pessoas com uma “dimensão extra” enquanto dançam…

Exageros bem à parte, os resultados desta iniciativa devem ser acompanhados bem de perto, pois o desenvolvimento desta tecnologia abrirá um leque de usos bem interessantes: já pensaram nossas grandes avenidas com iluminação garantida pelo rodar dos veículos, os estádios brasileiros de futebol com a iluminação vinda das torcidas nas arquibancadas, ou até mesmo a bateria de nossos iPods?

Ok, gastaremos muita sola de sapato até chegarmos a isto, mas para quem quiser conhecer in loco, o endereço é Sustainable Dance Club™ – Pannekoekstraat 106 – 3011 LL Rotterdam – The Netherlands – tel 0031(0)10 2762213.

Projeto Arquiteto Henk Döll.

Projeto do Arquiteto Henk Döll.

CASAS PASSIVAS

 

Quem lê rapidamente pode pensar que se está falando daquelas residências que se vêem cercadas por edíficios altos – monolitos de concreto eventualmente neo-neoclássicos (agora na versão isopor), em vários dos antigos quarteirões residenciais de nossas cidades. Mas não é nada disto.

Casas passivas são aquelas que fazem uso da fonte de energia mais intensa e barata que possuímos: o sol. Apesar do alto custo atual em transformar energia solar em energia elétrica, pouco nos impede de usufruirmos a energia gerada pelo calor. Além, é claro, das benesses que uma correta orientação quanto ao sol e os ventos podem oferecer. Em um país como o nosso, que consome uma fatia significativa da energia produzida com chuveiros elétricos, é de se pensar no porquê não podemos explorar o que a natureza nos oferece gratuitamente.

 

Fachadas Sul e Norte do conjunto Passive Houses no Distrito de Kronsberg (Hannover – Alemanha

Fachadas S e N das Passive Houses no Distrito de Kronsberg. Imagem CEPHEUS.

Aqui estão alguns exemplos de residências construídas em Kronsberg-Hannover, habitadas e monitoradas dentro do programa CEPHEUS (Cost Efficient Passive Houses as European Standards), do Passive Haus Institut (Alemanha), patrocinado pela Comissão da União Europeia IEEA (Inteligent Energy Executive Agency), que privilegia o desempenho energético como elemento prioritário para o estabelecimento de um grau maior de qualidade do projeto. Apesar da aparência estética com pouco “apelo arquitetônico”, as residências construídas são ambientalmente amigáveis, apresentando alto nível de conforto térmico e ótima qualidade do ar interno.

As imagens abaixo apresentam o esquema do conceito de ventilação eficiente aplicado as residências, com os pontos de entrada de ar e os de exaustão. Cada uma das 32 residências que formam o conjunto de Kronsberg possui um sistema de ventilação próprio capaz de recuperar o calor gerado pelo domicílio e que é operado por seus ocupantes conforme a melhor conveniência. Nas casas não existem pontos em que o ar fique estagnado, a ventilação (mesmo que apenas higiênica) é constante.

Planta-Baixa dos Pavimentos e elementos de insuflamento e exaustão do ar. Imagem CEPHEUS.

Planta-Baixa dos Pavimentos e elementos de insuflamento e exaustão do ar. Imagem CEPHEUS.

Outro hit da inércia térmica destas residências está na cobertura: telhado vivo tipo extensivo, que garante um bom controle da temperatura interna em relação ao meio externo. Abaixo, um dos esquemas de detalhamento e arremate entre a cobertura e a parede, sem o uso de qualquer tipo de cantoneira metálica para reforço. 

Ponte-Térmica livre de junções metálicas entre o elemento de cobertura e o de fachada. Imagem CEPHEUS.

Ponte-Térmica livre de junções metálicas entre o elemento de cobertura e o de fachada. Imagem CEPHEUS.

O que mais impressiona é que as casas não são apenas tecnicamente viáveis, mas também economicamente possíveis dentro dos padrões de Passive Houses estabelecidos. Apesar do modelo energético alemão (ou mesmo europeu) ser bem diferente do brasileiro, seria interessante que se entendesse o que está sendo feito por lá para que se aplique por aqui o que fosse viável, principalmente quando se entende que o custo de uma casa não caba com a execução da obra, mas sim que ele estende-se ao longo da vida útil dela, multiplicando o valor que o mercado apresenta ao consumidor por 4 a 8 vezes.